Iochep

Ivoncy Ioschpe

O atual Grupo Iochpe começou com Salomão Ioschpe, em Marcelino Ramos. Naquela época, 1937, convidou seu irmão mais velho, Israel Ioschpe para trabalhar junto com ele na área de madeira. Assim, começou o grupo Irmãos Iochpe. Posteriormente entraram Isaac e Miguel, que eram tios.

Quando meu pai faleceu eu tinha 17 anos. Logo depois eu comecei a trabalhar na Iochpe. Na época, era uma companhia extremamente familiar. A presidência ficava em Porto Alegre e após a morte de meu pai, ficou a cargo de meu tio Azis.

A área do interior, composta por serrarias e depósitos, ficou sob a administração de Israel e a área de exportação, que incluía os mercados da Argentina e do Uruguai, era atendida por Miguel.

Quando comecei a trabalhar, passei por todas as áreas da companhia. Na verdade fui o primeiro da segunda geração a trabalhar na empresa. Conheci todas as áreas e enquanto estudava, trabalhava e viajava. Naquela época tínhamos muitos depósitos de madeira e serrarias, tanto no Rio Grande do Sul como em Santa Catarina e em algumas cidades do Paraná.

Viajava nos fins de semana e estudava durante a semana. Assim passei a conhecer muito bem o negócio de madeira.

A Iochpe era então a maior empresa do setor madeireiro do Brasil. Em 1957, era realmente uma empresa muito grande e após o falecimento de Salomão Ioschpe, Azis, que era um homem extremamente conservador, reduziu um pouco o crescimento da companhia, mas mesmo assim, ela continuou sendo a maior produtora e exportadora de pinus do Brasil, durante muitos anos.

A passagem do Grupo de madeireira para o setor financeiro quem fez fui eu. A partir de 1960, houve na família um movimento no sentido de buscar novas alternativas para o negócio de reflorestamento.

Era consenso que a companhia deveria começar a ter estoque maior de floresta e processo de reflorestamento também de longo prazo. Mas, por outro lado, havia também dentro da família um trauma nas pessoas que viviam no interior. Naquela época, o interior era muito menos confortável que hoje, e as pessoas da família que trabalhavam no interior de certa maneira sentiam-se sacrificadas. A família dessas pessoas não morava normalmente com eles no interior. Moravam na cidade. Havia um distanciamento familiar muito grande, a geração que tinha começado o negócio de madeira e os filhos deles, que tinham ido estudar em universidades, não estavam mais dispostos a levar aquele tipo de vida que seus pais levavam.

Eu acredito que até os pais exagerassem na dificuldade de manter a vida no interior. Eles viviam muito sem conforto. Na indústria madeireira as serrarias eram instaladas para trabalhar uma determinada área florestal e, uma vez esgotadas essas áreas, elas eram levadas para outra área florestal. Toda a infraestrutura que envolvia a serraria e as casas eram muito pobres, pois aquilo era passageiro e como funcionava assim, ninguém estava disposto a fazer grandes investimentos, mesmo no conforto das pessoas. Esse era o sentido.

Por esse motivo desencadeou-se uma discussão dentro da companhia: qual seria o futuro dessa empresa madeireira?

Quem incentivou a discussão foi Azis, que tinha um trauma muito sério sobre esse assunto. Ele incentivava a discussão, tinha na cabeça que os filhos dele não deveriam trabalhar no interior.

Foi numa dessas ocasiões, a primeira em 1959, Azis propôs que se fizesse novo negócio: a instalação de uma fábrica de fecho, de zíper. Eu fui escalado para instalar a fábrica. Mas não se mostrou um negócio bom. Ninguém tinha experiência na área. O pessoal estava acostumado a coisas grandes… Mas essa indústria de zíper serviu para mostrar que tínhamos condições para fazer muitas outras coisas.

Naquela época o setor financeiro iniciava um período de grande desenvolvimento estimulado pelo crescimento do consumo e a expansão do mercado de crédito. Surgiam companhias de crédito, financeiras e empresas de investimentos dedicadas ao atendimento e fornecimento de crédito ao consumidor. Eu, na época da faculdade, já havia analisado esse tipo de companhia e sugeri que investíssemos nesse novo setor.

Houve um tempo de discussão interna porque era uma discussão que saia do negócio de madeira para fazer outro negócio. Mas todos queriam um novo negócio? Não. Desmancharíamos a companhia e cada grupo iria para um lado? Cada sócio iria sair com seu negócio? Não. Não queríamos isso também. Era um processo de idas e vindas, até que Azis me disse: “Eu acho que nós vamos fazer realmente o negócio, não quero mais esse negócio de madeira, vamos começar outra coisa. Foi quando recebi a oferta da carta patente de uma Financeira. Consultei Israel e aceitamos.

Assim começou o negócio financeiro na Companhia. A Financeira começou a operar completamente separada da madeireira. Azis era o presidente da Financeira e eu fui escalado para começar a cuidar só da Financeira, me desliguei da área de madeira e só cuidei da Financeira.